
Um procedimento inédito realizado nos Estados Unidos permitiu que um homem sobrevivesse por dois dias sem os dois pulmões. O caso ocorreu em 2023 e teve seus resultados divulgados na última quinta-feira (29) pela revista científica Med, da Cell Press.
A técnica foi aplicada no Northwestern Medicine e envolveu um paciente de 33 anos, que não teve a identidade revelada. Diante de uma infecção grave e sem resposta a tratamentos convencionais, os médicos decidiram remover ambos os pulmões como medida extrema para conter o avanço da doença. O paciente já aguardava um transplante pulmonar, o que tornou a decisão ainda mais necessária.
O quadro clínico teve início com uma insuficiência pulmonar associada à gripe, que evoluiu rapidamente para pneumonia e sepse grave. A condição do paciente se agravou progressivamente, incluindo um episódio de parada cardíaca, no qual foi necessária a realização de reanimação cardiopulmonar.
“Ele desenvolveu uma infecção pulmonar que não podia ser tratada com nenhum antibiótico, pois era resistente a todos”, afirmou o chefe de cirurgia torácica e diretor executivo do Instituto Torácico Canning da Northwestern Medicine, Ankit Bharat, em comunicado. “Essa infecção fez com que seus pulmões se liquefizessem e, em seguida, continuou a se espalhar para o resto do corpo.”
Segundo Bharat, a retirada dos pulmões teve efeito imediato na recuperação do paciente. “Apenas um dia depois de retirarmos os pulmões, o corpo dele começou a melhorar porque a infecção havia desaparecido”, disse.
Nas 48 horas seguintes, o estado de saúde do paciente evoluiu de forma positiva, permitindo a realização do transplante. Quando os pulmões doados ficaram disponíveis, a equipe médica conseguiu realizar com sucesso o transplante bipulmonar.
Durante o período em que o paciente permaneceu sem os órgãos, os especialistas desenvolveram um sistema de pulmão artificial, capaz de oxigenar o sangue e oferecer suporte à circulação. A estratégia foi essencial para manter o fluxo sanguíneo adequado pelo coração, condição indispensável para a sobrevivência.
Além disso, como a ausência dos pulmões pode provocar o deslocamento do coração dentro da cavidade torácica, a equipe utilizou suportes temporários, como expansores de tecido - normalmente empregados em cirurgias reconstrutivas - para estabilizar o órgão até o transplante.
De acordo com os pesquisadores, dois anos após o procedimento, o paciente conseguiu retomar uma vida normal.
O estudo também apresenta uma análise molecular detalhada dos pulmões removidos, trazendo informações relevantes para a compreensão de quando uma lesão pulmonar grave deixa de ser “potencialmente recuperável” e passa a ser considerada irreversível.
A equipe utilizou técnicas avançadas, como análises transcriptômicas espaciais e de célula única, para examinar diferentes regiões dos pulmões. Os resultados revelaram extensas cicatrizes e danos provocados pelo sistema imunológico, semelhantes aos observados em doenças pulmonares graves e irreversíveis.
Os pesquisadores identificaram ainda a quase ausência de células responsáveis pela regeneração pulmonar, enquanto células associadas à formação de cicatrizes estavam amplamente presentes, com perda da estrutura normal dos pulmões. Esses achados ajudam a explicar por que apenas o suporte clínico não seria suficiente para a recuperação do órgão.
Para os especialistas envolvidos no projeto, o procedimento representa um marco no tratamento de pacientes com insuficiência pulmonar catastrófica - um grupo que, até então, era considerado fora de qualquer possibilidade terapêutica.
Fonte: R7